O ano de 2026 arranca com um cenário misto para os portugueses: se por um lado há um alívio fiscal no IRS e um reforço nos rendimentos (salários e pensões), por outro, o custo de vida agrava-se com a subida de preços em serviços essenciais, transportes e telecomunicações. As previsões macroeconómicas do Governo e do Banco de Portugal apontam para um crescimento do PIB de 2,3%, ligeiramente acima dos 2,2% estimados por Bruxelas, num contexto de juros estagnados.
Eis o que muda concretamente nas despesas e receitas das famílias:
1. Habitação e Rendas
Para os inquilinos, o ano traz atualizações. O teto máximo para o aumento das rendas foi fixado em 2,24%, valor calculado com base na inflação (excluindo habitação) até agosto passado.
Atenção aos aumentos acumulados: Os senhorios que optaram por não atualizar as rendas nos últimos dois anos têm luz verde para somar esses coeficientes não aplicados ao valor deste ano. Nesta situação excecional, o aumento pode atingir os 11,34%.
Regras: As atualizações só são permitidas após um ano de contrato.
2. Transportes e Mobilidade
A mobilidade ficará mais cara para quem utiliza viatura própria ou bilhetes ocasionais, mas os passes mensais mantêm-se estáveis.
Portagens: Embora as ex-SCUT como a A25 deixem de ser pagas (e haja isenções locais na A2 e A6), a regra geral é de aumento. As concessionárias podem aplicar uma subida de 2,29%.
Lisboa-Porto (A1): Sobe 45 cêntimos, totalizando 25,05 euros.
Lisboa-Algarve (A2): Agrava-se 50 cêntimos, fixando-se em 23,80 euros.
Pontes sobre o Tejo: Aumentam 10 cêntimos (2,25€ na 25 de Abril e 3,40€ na Vasco da Gama, para classe 1).
Transportes Públicos: A boa notícia é o congelamento dos preços dos passes Navegante (Lisboa) e Andante (Porto) nos 30€ (municipal) e 40€ (metropolitano). Contudo, os bilhetes de bordo e ocasionais sobem. Em Lisboa, a tarifa de bordo na Carris chega aos 2,30€ (autocarro) e 3,30€ (elétrico).
Inspeção Automóvel: Levar o carro à inspeção custará 37,47 euros (+83 cêntimos).
3. Despesas Domésticas: Energia e Telecomunicações
Eletricidade: No mercado regulado, a ERSE definiu um aumento médio de 1%. Para uma família com dois filhos (potência 6,9 kVA), isto traduz-se em mais 28 cêntimos mensais. No mercado liberalizado, o impacto dependerá de cada operadora, mas as tarifas de acesso às redes subirão 3,5%.
Telecomunicações: As principais operadoras (MEO, NOS, Vodafone) vão refletir a inflação de 2025 nos preços. A MEO agrava os pós-pagos móveis em 50 cêntimos logo a abrir o ano. A Digi, até ao momento, não sinalizou aumentos.
Seguros de Saúde: Prevê-se um agravamento acentuado, na ordem dos 10%, afetando sobretudo apólices empresariais, mas com contágio provável aos seguros individuais.
4. Rendimentos: Salários e Pensões
Do lado dos ganhos, há atualizações significativas para tentar compensar a inflação.
Salário Mínimo: O ordenado mínimo nacional dá um salto de 50 euros, fixando-se nos 920 euros. Na Função Pública, o mínimo será de 934,99 euros.
Prémios de Produtividade: Mantém-se a isenção de IRS e TSU para prémios até 6% do salário base, desde que a empresa assegure um aumento salarial global de 4,6%.
Pensões: A idade da reforma avança para os 66 anos e 9 meses. As pensões sobem em três escalões:
2,8% para valores até 1.074,26€.
2,27% para valores entre 1.074,26€ e 3.222,78€.
2,02% para reformas até 6.444,56€ (acima disto, ficam congeladas).
O Complemento Solidário para Idosos (CSI) sobe 40 euros, atingindo os 670 euros.
5. Fiscalidade: IRS e IMT
O alívio fiscal é uma das notas dominantes para 2026.
IRS: Os escalões são atualizados em 3,51% e as taxas descem 0,3 pontos percentuais entre o 2.º e o 5.º escalão.
Deduções: A dedução de rendas no IRS passa para 750 euros (com proposta para chegar aos 900 euros). O IVA suportado em atividades culturais (livros, teatro, concertos) passa a ser parcialmente dedutível.
IMT (Imobiliário):
Jovens (até 35 anos): Isenção total na compra da primeira casa até 330.539 euros. Para valores superiores (até cerca de 660 mil euros), paga-se imposto apenas sobre o excedente.
Geral: O limiar de isenção sobe para 106.356 euros.
6. Taxas de Juro
A estabilidade deverá marcar o ano financeiro. O BCE manteve a taxa de depósito nos 2%, e não se esperam mexidas bruscas até meados do ano. As taxas Euribor (a 3 e 6 meses) deverão oscilar ligeiramente, terminando 2026 próximas dos valores iniciais (entre 2,05% e 2,17%), com possibilidade de uma ligeira descida no primeiro semestre seguida de recuperação.